Coluna do Alexandre
Nº 1 - Julho/2010

600

Iniciei-me no mundo das duas rodas por um caminho um pouco diferente do usual. Boa parte dos motociclistas entra nesse universo montado em motocicletas de pequena cilindrada, vão crescendo as motos à medida que cresce amor, desejo e principalmente numerário, obstáculo a que todos nós mortais tupiniquins estamos lamentavelmente sujeitos.

Já há alguns anos vinha eu acalentando um certo amor pela já descontinuada Shadow 600, achava-a estilosa, classuda, motocicleta na medida certa, estilo chopper, sem grandes exageros, mas com tudo o que o manual da boa moto custom pregava até então. Olhava a moto flanando pelas ruas, desejava-a, deixava o tempo passar e guardava o sonho na gaveta. Tempos bicudos, que não me permitiam buscar a motoca e levá-la para casa, não havia a contrapartida que qualquer vendedor esperaria por seu estimado bem.

Certa feita, idos de 2004, o dinheiro cessou de fugir, a vontade veio e também não foi embora. Abri o jornal e lá estava: “Shadow 600, 2002, 2518 Km rodados, moto perfeita, sem detalhes, quem ver leva”, fui ver. O vendedor não mentia, de fato levei a moto. Levei não, comprei, não sabia como levá-la para casa, recorri a Gabriel, um amigo que a vida fez irmão, meu mais dileto companheiro de estrada, que realizou toda a logística até minha residência. Optei por comprar antes de buscar habilitação ou mesmo aprender a andar de moto. O sonho era definitivo, não cabia senão, fosse eu primeiro tirar a carteira e talvez desistisse ou desanimasse. Olhando a moto na garagem não caberia retorno ou dúvida, era conseguir ou conseguir a carta.

Assim o fiz, procurei o DETRAN, matriculei-me numa moto escola e percorri o calvário da pista de exames. Evitei a moto enquanto durou o suplício, a chance de cair era imensa. Apenas em duas ocasiões o amigo levou a moto a um condomínio e lá pude andar, em pista livre, sentindo a força do motor, as respostas em curvas, ainda a baixa velocidade, mas já com a certeza de estar entrando em um mundo definitivo. Após 15 ou 20 aulas, foi marcado o exame, curto, durou cerca de 3 ou 4 segundos, a moto era outra que não a utilizada nas aulas e com marcha lenta baixa para os pobres padrões do incauto aprendiz. Morreu cerca de 15 cm após a largada.

Voltei para casa sob o signo da revolta, telefonei ao Gabriel e o chamei para uma volta mais longa, dane-se a carta, aquilo não era jeito de perder um exame. Saí pela primeira vez na estrada, 040, até o trevo de Ouro Preto somente, equivalia a ir ao Ushuaia ou a Santiago naquela hora. Vitória! Fui e voltei! Mais 10 aulas e a habilitação agora constava: categorias AB.

Nos dois anos seguintes minha fiel companheira levou-me a inúmeras cidades, a primeira, Barbacena. São Paulo, Tiradentes, Guarapari, um monte delas mais. Foram 17500 km de aventura, alegria e encantamento. Equipei a moto, faróis de milha, com relé, para não queimar a fiação. Alforjes, botas, luvas, roupas de couro e cordura, pedaleiras avançadas, bolha. Banco largo, para a namorada, hoje esposa, passar a gostar da novidade. De tempo em tempo tirava tudo, deixava a motoca original, com aspecto um pouco mais “esportivo”, enjoava e punha tudo de volta.

No Salão Duas Rodas de 2005 conheci dois novos amores: sua irmã maior, Shadow 750, vermelha, girando num palco exclusivo, estrela do show, Marilyn Monroe no stand da Honda. Outra a Vstrom, linda, altaneira, imponente, um arranha céus, de tão grande. Amores à primeira vista. Minha adorada 600, parada na garagem do hotel da fria São Paulo, não imaginava o fim da união, que se avolumava.

Telefonei para a agora noiva, falei sobre o bom negócio que uma concessionária propunha para a troca pela forte Vstrom, mas a oposição se mostrou ferrenha, casamento que se aproximava e absurdo, gastar tanto dinheiro numa moto.

Voltei à minha Belo Horizonte, sentindo a delícia que é viajar pela 381 em duas rodas, amando minha linda 600, mas já com o coração dividido entre dois novos amores, o germe da traição já habitava a alma. Meses depois se consumaria, num vantajoso negócio por uma Shadow 750 vermelha como a que vira em São Paulo. De fato, amor à primeira vista, até na cor. Essa é outra história, será contada mais tarde. Hoje, ao relembrar esse tempo, me vem a saudade, de minha bela 600, que o tempo levou.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br