Coluna do Alexandre
Nº 11 - Maio/2011

Quarenta e dois

Nos últimos trinta dias padeci de duas amidalites, uma entorse grave no tornozelo direito e um quadro de infecção intestinal. Conversando com um colega médico chegamos à conclusão que se tratava de alguma baixa imunitária, derivada de estresse ou sobrecarga de trabalho. Fui para casa manquitola, rouco e não completamente convencido. Nada me tira da cabeça que a culpa é dos meus quarenta e dois anos.

Dias antes de completar 35 anos de idade li uma pesquisa do IBGE que situava a expectativa de vida do homem do sudeste brasileiro em torno de 70 anos. Estava na metade da vida. Comecei a pensar na aposentadoria distante, nas viagens que nunca fiz e outras coisas mais. Reexaminando a pesquisa vi que parte dos motivos da menor expectativa de vida dos homens em relação às mulheres se devia a eventos de morte violenta, acidentes de trabalho e de trânsito, onde as vítimas eram predominantemente homens com menos de 30 anos.

Sob essa perspectiva serenei e passei a ter em mente sobreviver pelo menos até os oitenta, deixando os pensamentos mórbidos de lado. Ao completar quarenta anos não houve remédio. Estava mais perto do cemitério que da maternidade. No dia de meu aniversário evitei os amigos, não quis festa, evitei comentar. Fazia uns oito anos que não furava um pneu de carro. Saí de casa, andei 10 quadras e um motorista de táxi me alertava que o pneu traseiro de meu carro estava murcho. Fui ao borracheiro, um prego monumental jazia entre as fibras de borracha. Era a década dos quarenta que se iniciava sob maus presságios.

De lá para cá engordei cerca de oito quilos, que a despeito de dieta e exercícios não consegui perder. Torci os pés pelo menos quatro vezes nos últimos dois anos. Perdi uma viagem de moto ao Espírito Santo por conta de uma lombalgia aguda, desencadeada por, pasmem, uma inclinação do tronco para pegar um copo de cerveja numa mesa de bar. Minha visão que era perfeita já me exige um par de óculos para ler letras miúdas e o preparo físico virou uma lembrança distante.

A coisa vai mesmo mal. Dia desses comentei no hospital que gostava de Pink Floyd e Rush, uma técnica em enfermagem comentou que seu irmão adolescente também gostava dessas músicas de velho. Chamei o boy da clínica de Mc Gyver e ele perguntou quem era. Meu sobrinho pegou emprestada a coleção dos longas do Star Trek e ao devolver, disse ter adorado, que essas coisas antigas eram muito legais.

Preocupo-me com o futuro, no rumo que a coisa vai, em poucos anos terei problemas em andar de moto, dificuldade com longas viagens e caminhadas. Estarei gordo, barrigudo, cheio de artroses, resultado de entorses e quedas sucessivas, somadas à degeneração natural que a idade embute. Careca, com aquela penugem branca dos lados do cocuruto. Pior que tudo, ainda serei obrigado a trabalhar. Deste ponto até o encontro com o Criador será uma jornada em terra inóspita.

Da ótica do defunto, morrer é quase igual a estar vivo e dormindo. A diferença é que não se acorda. Não pelo menos até o dia do Juízo Final, que dependendo da vida que se teve, é melhor que nem chegue. O problema então não consiste em morrer, mas em deixar de estar vivo, ou pior, estar vivo e ferrado. Quando se tem vinte anos esse tema sequer passa pela nossa cabeça. Aos quarenta e dois já é vislumbrado ao longe e sentido perto.

São muitos os livros que desejo ler, filmes que quero assistir, lugares que almejo visitar. Preciso queimar gasolina e pneus de moto à revelia, dando minha cota de poluição a este mundo. Preciso aprender a tocar violão, escrever colunas, aprender marcenaria e mecânica. A aposentadoria não chega antes de a saúde ir embora? Matriculei-me na ginástica, diminuí os doces, reduzi minha carga horária de trabalho e aumentei as frutas. O mundo é como a Disney: depois da fila o brinquedo. E que brinquedo! O que se exige é chegar cedo, beber água, se alimentar bem, ter paciência nas filas, sabendo administra-las e andar bastante. Espero que dê tempo.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br