Coluna do Alexandre
Nº 12 - Junho/2011

Compra-se Sítio

Não tolero mais Belo Horizonte e seus quilométricos engarrafamentos, não agüento a aglomeração de pessoas em shoppings, bares, bancos e em tudo onde possa entrar gente. Não suporto o bom mocismo dos ditos politicamente corretos. Não quero mais assistir ao Jornal Nacional, me cansei das notícias sobre a corrupção crescente e desenfreada, que recebeu nossa alforria definitiva quando, após o mensalão, reelegemos a quadrilha. Tornei-me um fóbico social.

O governo não para de criar meios de controlar nossas vidas. Mete-se nos remédios que podemos tomar, à revelia da prescrição do médico que os receitou, diz que não podemos dar uma palmada no bumbum daquele filho malcriado, tenta desarmar a população sem fazer o mesmo com os bandidos. Entra na liberdade individual, dizendo proteger a coletiva. Tempos atrás recebi um email sobre a ditadura, dizia que naquele tempo podíamos fazer tudo, exceto falar mal do governo. Hoje podemos falar mal do governo. E mais nada.

A chatíssima trupe dos politicamente corretos diz que não podemos lavar carros com a mangueira ligada, que não podemos comer transgênicos, que carne vermelha mata (fosse verdade e teríamos sido extintos no tempo das cavernas). O patrulhamento é terrível, até Monteiro Lobato levou seu quinhão, taxado por alguns beócios de racista, por conta da personagem Tia Anastácia, talvez a melhor cozinheira da literatura nacional, uma senhora doce, que fazia quitutes com os quais toda criança de minha geração sonhou.

A última dessa gente: proibir as sacolas plásticas. Qualquer dona de casa sabe que o destino final daquelas sacolas é acondicionar lixo doméstico. Agora somos obrigados a comprar sacos de lixo feitos do mesmo plástico que se usava nas sacolas. Os aterros sanitários receberão a mesmíssima quantidade de plástico que recebiam antes. A diferença é que agora pagaremos pelos sacos de lixo e por cada sacola “ecologicamente correta” que levarmos para casa. Os bolsos dos donos de supermercado agradecem.

Completando o festival de ignomínias, um dos livros de português distribuídos pelo MEC (“Por uma vida melhor”) afirma que é certo dizer “Nós pega o peixe” e ainda adverte a todos os incomodados que, corrigir o presente atentado contra o vernáculo, é discriminação lingüística. Olhando para o passado começo a compreender porque me apaixonei por motocicletas. É um dos poucos meios de transporte onde não é possível conversar com ninguém, ainda que se tenha companhia, é proibido ouvir rádio e de quebra se fura a interminável fila do trânsito.

Diga-se de passagem, o mundo motociclístico é terreno fértil para essa turma. À medida que aumenta o número de motos nas ruas, os administradores reduzem as vagas de estacionamento nas regiões centrais das cidades. Anos atrás criaram uns selos para os capacetes, com a desculpa de certificar a qualidade das peças comercializadas no país. Conforme ficava claro que a manobra tinha fins somente arrecadatórios e mediante chiadeira geral, amoleceram com a regra. Já inventaram toda sorte de besteira. Um deputado desocupado tentou implantar um colete a ser usado pelos motociclistas, onde obrigatoriamente, seria grafada a placa da motocicleta. Outro queria proibir a circulação de motos em rodovias. Alguns vereadores proibiram o uso de capacetes em suas cidades, ignorando a constituição federal.

Preciso sumir urgentemente, procuro sítio para compra. Pago bem. A propriedade deve se situar em local não coberto por sinal de telefonia celular, o sinal de televisão também é dispensável, se possível um terreno acidentado, com algum morro que me permita visualizar toda a propriedade, com nascente de água e horta. Construirei minha casa na parte alta da gleba, com uma varanda sombreada, onde passarei meus dias numa cadeira de balanço, embriagado e de bacamarte na mão, tal qual Zé Buscapé, a espantar os visitantes.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br