Coluna do Alexandre
Nº 13 - Julho/2011

Desejos

Desculpem-me os desapegados, os franciscanos e aqueles que consideram o materialismo o mal do século, mas o fato é que, tivesse eu numerário suficiente e haveria hoje umas oito ou dez motos na garagem lá de casa. Dias atrás fui à loja da Harley Davidson namorar uma XR1200 branca que vira semanas antes. A moto é linda, elegante, agressiva. Eis algo que gostaria de ter. Ter sem me desfazer de nada, jamais trocaria minha Varadero por ela, queria as duas! Aliás, queria as três, minha ximbiquinha (uma Yes 125 2008) faz coisas no trânsito que nenhuma das outras duas seria capaz de fazer.

O amigo que me acompanhava logo perguntou por que eu teria três motocicletas. Arquivei a idéia e fui para casa, convencido em termos práticos, mas com a 1200 na cabeça. Hoje revi a motoca pela internet e comecei a pensar no que faria se aterrisassem alguns milhões em minha conta. Continuaria a ter minhas duas motos, teria também a XR1200, uma Hayabusa, para deixar uns jaspions para trás nos domingos de manhã. Uma Electra Glide ou Goldwing, para me sentir num Dodge Dart. Uma BMW 1200 GS para ir ao Chile, uma Chopper para dar voltinha na Bandeirantes sábado à tarde e um Burgman 400 para ir trabalhar de lambretão. Obviamente que não teria tempo para andar nisso tudo, muito provavelmente me tornaria um assíduo freqüentador de lojas de bateria, mas olhar para todas essas motos na garagem valeria o trabalho.

Pensando nisso lembrei-me de alguns amigos que, com uma única e despretensiosa motocicleta, vivem o sonho do motociclismo em sua plenitude. Viajar, se hospedar naquelas espeluncas que deveriam ser multadas apenas por colocar a placa com o nome “hotel” à porta, comer churrasco 0800, dar risada com os amigos, dizer que o guitarrista da banda de sexta à noite, no encontro, tocava melhor que o David Gilmour. Lembrei-me de minhas melhores viagens. Todas envolviam gostar de pilotar minha própria moto, sendo que das quatro motos que tive, duas não fazem parte de minha atual lista de desejos, porém isto jamais tirou meu prazer em viajar.

Existem dois prazeres no motociclismo, ver e usar. Nós motociclistas amamos viajar, andar de moto, ainda que numa voltinha curta. Amamos também ver motocicletas, admira-las na loja, na rua, na estrada. Gostamos de ler testes de moto nas revistas, comentar sobre o ronco de um motor e a capacidade de fazer curvas de cada máquina que nos passa à frente. Ter uma coleção de motos traria a revista para dentro da garagem, tornar-me-ia o dono da concessionária, meu museu de portas fechadas, cheio de novidades.

É a velha máxima das festas, o melhor é sempre a espera, o sonho, o planejamento. Imaginar minha garagem, com uma daquelas velhas bombas de combustível finamente restaurada, um sem número de motocicletas lá dentro, meu quadro de ferramentas impecável, mistura a realidade ao sonho. Cria objetivos por vezes inalcançáveis como tempero da realidade deliciosa que é andar de moto. Nesse meio tempo viajo montado nas 1000 cilindradas da Varadero, aproveito a leveza da ximbiquinha. Curto as paisagens, os encontros, as horas de estrada, os papos com os amigos. Enquanto os milhões não chegam, vou namorando as motos em território alheio. Mas é bonita a danada da XR 1200...

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br