Coluna do Alexandre
Nº 16 - Março/2012

Tempos Bicudos

Vivemos um período complicado: informação em demasia e pouca gente com miolo para digeri-la. Idéias sobre o fim do mundo, não por tempestades de fogo ou dilúvios bíblicos, mas pela própria ação do homem. Pessoas excessivamente ofendidas, por tudo e por todos, com outras prontas a defendê-las. Velhos preconceitos adormecidos, acordados pela excessiva discussão pública do privado.

Terreno fértil para o crescimento da turma politicamente correta, gente que se propõe a defender a igualdade, o bom mocismo, mas que constantemente ouve o galo cantar sem saber bem aonde e sai, rua afora, repetindo idéias de outrem. Exemplo típico foram as sacolinhas plásticas em Belo Horizonte. Um belo dia um vereador resolveu criar um projeto de lei proibindo a distribuição das famigeradas sacolas que, segundo ele, seriam causa de muitas desgraças ambientais. Foi colocado que existiriam sacolas compostáveis, não nocivas ao meio ambiente, que seriam vendidas a dezenove centavos a unidade. Não pude deixar de pensar no oportunismo e na inocuidade da medida. Poucas coisas são tão reaproveitadas quanto essas sacolas, basta andar na rua e veremos pessoas carregando as mais diversas tralhas dentro delas, as veremos sendo usadas como sacos de lixo e até como cordas, amarrando gambiarras.

Eliminadas as sacolas, onde colocaremos nosso lixo? Em sacos pretos, de plástico, o mesmo da sacola banida. Será que estes sacos que agora somos obrigados a comprar são menos nocivos que os outros. São, para os bolsos dos donos de supermercados, que ganham duas vezes (vendem o saco preto e a sacola compostável). Para o fabricante dos sacos e das sacolas compostáveis, que viram suas vendas se multiplicarem. Para nós outros, pobres consumidores, restou o que sempre sobra quando um político olha para o nosso lado, ferro e conta para pagar.

Humoristas levam uma vida complicada dentro do atual conceito do que é ou não politicamente correto. Não se pode mais fazer piada com gays, anões, caipiras, portugueses, não se pode fazer piada com nada, humor precisa ser sério (ahn?). Lembro de minha infância, Costinha e sua impagável bichinha, os Trapalhões com seu galã, seu nordestino, seu malandro, carioca e negro e seu mineirinho, caipira e afeminado. Como riam de si mesmos. E como faziam rir. Tudo o que hoje seria condenável, condensado em uma época bem mais divertida.

No motociclismo a situação é a mesma. Somos chamados a colaborar com campanhas, fazer parte de eventos beneficentes, defender pontos de vista de uma maioria que determina o que é ou não atitude de um motociclista de verdade. Dessas condutas, óbvio, deriva já um preconceito. Passamos a nos dividir entre motoqueiros e motociclistas. O dicionário considera os dois verbetes sinônimos. Alguns motociclistas, do alto de sua sabedoria consideram o motoqueiro uma subclasse, um subproduto do motociclismo. Seriam eles aqueles sujeitos que serpenteiam de forma irresponsável entre carros e caminhões e que vez por outras acabam embaixo deles? Seriam apenas pessoas humildes em motos de baixa cilindrada, que as utilizam como meio de transporte e não vêem nas motos nada da poesia que nelas colocamos? Seriam usuários grosseiros de motos de qualquer tamanho? Ou seria apenas nosso desejo de ser mais que nossos semelhantes, criando categorias diferentes para dividir iguais?

Não tenho nada contra ajudar meu semelhante, ser solidário, apoiar campanhas contra isso ou a favor daquilo, ser companheiro de outros que dividem comigo minha opção de lazer. Mas gosto de fazer isso no dia que quero. Não gosto de ser classificado como A ou B somente porque não quis tomar parte de uma moto carreata para ajudar a igreja de Santa Aquiropita a arrecadar fundos para a reforma do piso do salão paroquial. Em alguns dias quero ir a eventos, ver meus amigos de motoclube, em outros quero andar de moto com um ou dois amigos e noutros ainda quero andar sozinho, sem ver ou falar com ninguém. Motociclista, segundo a definição do Michaelis, é a pessoa que conduz motocicleta. É apenas isso que eu sou.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br