Coluna do Alexandre
Nº 19 - Abril/2015

Porque a moto?

Nesses tempos bicudos de crise e imposto de renda detive-me a observar minhas motos na garagem. São três, olhando-as me perguntei porque diabos um homem troca um carro com direção hidráulica, ar condicionado e outros mimos por um veículo com duas rodas, cuja característica mais primária é tombar ao chão, que nos sujeita às intempéries, sujeiras do asfalto, quedas, sol no lombo, com o calor infernal que o acompanha e a temida “água podre” na pista, vinda sabe-se lá de onde e que, após a passagem dos pneus, teima em respingar nas nossas canelas, trazendo à tona nossos medos mais primitivos de micróbios e pernas caindo.

Sendo um sujeito que trabalha em excesso vejo-me constantemente envolto em prazos, horários, despesas, escalas difíceis de compatibilizar, feriados em hospitais, como este sábado de aleluia em que redijo este texto e outras cansativas similitudes. Escolhi viver assim a partir de alguns projetos de vida e de vivências dolorosas do passado, que ensinaram ser o homem que não vive o presente, pensando somente no futuro, um tolo. Por outro lado, viver o presente sem pensar no futuro é sempre um descuido. Isso torna a vida um pouco mais trabalhosa, pois é necessário gastar e poupar ao mesmo tempo. Em última análise poderia dizer que procurei meu próprio cansaço. Se esta constatação serve de consolo, não resolve o imbróglio. Disponho hoje de pouco tempo livre, as pessoas que amo reclamam de minha ausência, assim como meus amigos.

A vida humana na Terra é difícil e dura. Sempre ao passar por pontos de ônibus lotados, atender meus pacientes de SUS, que perdem consultas por não ter sequer o dinheiro da condução, ver gente esforçada trabalhando duro em troca de subsistência, sem qualquer possibilidade de almejar uma vida melhor, penso em Adão e Eva e na triste realidade de comer nosso pão a partir do suor do próprio rosto. Vejo-me um abençoado, que teve as oportunidades de galgar posições melhores a partir do próprio esforço. O mérito é sempre daquele que realiza, mas as condições para que esse mérito seja possível dependem de muitas outras coisas. Pai e mãe que incentivem, Deus, provendo saúde e inteligência. Determinação, companhias certas, desejo e talvez o mais difícil: acreditar em um esforço cujo fim não é visível e cujo resultado não sabemos nem temos condições intelectuais de aquilatar enquanto o depreendemos.

Explicar o magnetismo das motos começa, paradoxalmente, pelo próprio capacete. Poucas coisas nos colocam tão em contato com nós mesmos quanto esse item de segurança. Sentimos nossa respiração, o calor que nos emana do rosto, o suor da testa, o hálito. Os sentidos seguem limitados, a audição é abafada, a visão tem ângulo estreito e é prejudicada pela viseira. Não há com quem falar e o tato não ultrapassa os limites das manetes. É um ambiente perfeito para o contato consigo mesmo, sem o tédio das meditações, posto ser necessário fazer curvas, calcular trajetórias, desviar de buracos e observar o perfeito equilíbrio entre os dois freios nas paradas.

Gostar de motos não é um estilo de vida como dizem alguns, não é solução de problemas nem tampouco alguma panaceia que nos livre de males existenciais. A moto em última análise nos põe em contato com nosso íntimo e com o ambiente que nos cerca, em sua forma mais crua: sol, calor, frio, chuva, vento. Nos desperta emoções primárias: relaxamento, medo, alívio, vitória. Nada muito elaborado ou complexo. Uma somatória de coisas simples onde entramos em contato com o complexo que somos, onde dirimimos dúvidas, criamos outras, esquecemos das tensões, encontramos o relaxamento e por vezes a paz. Não se busca a moto para estar sozinho. Busca-se a moto para ser melhor em conjunto, é um momento sabático no cotidiano, de reflexão sobre si mesmo e sobre a vida. Tudo embalado pelo ronco do motor, pela arrancada, a manobra arrojada, a velocidade. Muitas vezes dentro de paisagens deliciosas, nos remetendo àquele tempo em que podíamos ser irresponsáveis garotos, sonhando ser o Nelson Piquet.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br