Coluna do Alexandre
Nº 2 - Agosto/2010

Estrada Real

Um dos roteiros mais agradáveis para um passeio em duas rodas no entorno de Belo Horizonte é o da Estrada Real. Saindo pela BR 356, viaja-se até o trevo para Mariana, já próximo a Ouro Preto. Dali tem-se cerca de 5 km até o entroncamento da estrada Real. Após um curto trecho de calçamento, com sacolejantes paralelepípedos, adentra-se então no trecho mais gostoso do passeio, com estrada de pouco movimento, muitas curvas, vista deslumbrante, pontes de duzentos anos e clima muito agradável. Chega-se então a Ouro Branco, sede anual de um agradável evento organizado pelo Steel Goose MG, onde um pitoresco boi gira num rolete, sob a fome de uns e protestos de outros. Parte já integrante de nosso folclore motociclístico. De lá se alcança a BR 040 e daí BH.

Em 2005 vivi ali um episódio singelo, que me apresentou a uma nova faceta de minha visão do motociclismo. Íamos Gabriel, Eduardo e eu em direção a Ouro Branco. Gabriel em sua Virago 535, eu e Eduardo em duas Shadows 600. Viajávamos a 80, às vezes 100 km/hora, sentindo o vento no rosto, contemplando a paisagem. À nossa frente surgiu uma CG 125, já bem velha, com seus 10 ou 15 anos de uso. Vimos, viemos e passamos. Era uma subida longa e nossos motores facilmente venceram o esforço do monocilíndrico da CG. Logo começamos a descer e eis que a pequena Honda nos ultrapassou, acompanhada de um animado olhar de seu piloto, que superava adversários maiores e mais reluzentes. Nova subida e nova ultrapassagem nossa. Novo declive ou alguma curva mais fechada e lá ia a motoquinha a nos deixar para trás de novo. Assim fomos por bons quilômetros.

Já perto de Ouro Branco uma última subida, longa, que começava depois de uma curva. Nosso novo amigo acelerou sua CG, e após uma bem feita curva, que nos impediu a aproximação, manteve-se à frente durante todo o ascendente percurso. Chegamos a Ouro Branco juntos, mas com a 125 à frente. Posição na qual nosso recente companheiro abandonou a rodovia, adentrando a cidade e eternizando nossas posições de chegada. Virou, não sem antes olhar para trás, quando pude divisar sua expressão vitoriosa, de satisfação por se manter à frente. Davi, que vencia três Golias de uma só tacada.

Tomamos a 040, rumo a Belo Horizonte, sozinho dentro de meu capacete imaginava nosso companheiro entre amigos, contando do “binóculo” que dera em três motos grandes, que não conseguiram alcançá-lo. Valeria sem dúvida uma cerveja, ou ao menos um brinde e boas risadas. O carinho com a judiada 125 com certeza aumentara.

Pude perceber que muitos prazeres no motociclismo independem da potência ou do tamanho da motocicleta. Ali alimentamos nossa capacidade de sonhar, nos tornamos personagens de nossa infância, que nos tenros anos eram públicos e que hoje, já com a cabeleira desejando branquear, se tornam íntimos e secretos. Eu vivi naquela estrada, inúmeras cenas de Easy Rider, onde não contava a velocidade, mas o vento no rosto, o contorno lento e cuidadoso de cada curva. Era capaz de ouvir a trilha sonora em meu capacete, que naqueles momentos metamorfoseava-se em algum tipo de walkman. Meu anônimo amigo por sua vez acabara de vencer uma prova de Moto GP. Ambos fomos personagens nas histórias e nos sonhos um do outro. Sem nunca termos nos falado, sem sabermos sequer de onde éramos e para onde íamos. Coisas de motocicleta...

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br