Coluna do Alexandre
Nº 3 - Setembro/2010

Como (a)fundar um Motoclube

Um manual para a danação eterna - Parte I

Por mais incrível que possa parecer uma das maiores preocupações dos neófitos do motociclismo é se filiar a motoclubes. Habitualmente procuram encontros de motociclistas, compram montes de tralhas em couro e após certa procura passam a integrar alguma agremiação.

Existem dois modos básicos de se tornar um motoclubista. O sujeito pode se aproximar de integrantes de algum clube conhecido, pilotar junto deles por alguns meses e aguardar um convite, ou simplesmente fundar seu próprio grupo.

Esqueça tudo o que ler sobre tradição, motoclubes antigos ou proliferação indiscriminada de agremiações. Se um monte de gente já fundou uma infinidade de grupos qual o motivo para você também não fazê-lo?

A primeira coisa a fazer é criar uma denominação. Os nomes de motoclubes seguem todos uma mesma e pouco criativa lógica. Sempre são compostos, o primeiro nome costuma retratar um animal feroz (lobos, tigres...), um ser mitológico (dragões, fantasmas...) ou um tipo qualquer de pária (loucos, fugitivos...), o segundo nome indica um lugar geográfico, algo relacionado a estradas, ou algum ideal. Exemplo clássico: Loucos das Gerais, párias, preposição, lugar geográfico. Moleza, qualquer bípede bola um.

O brasão é importante. Não perca seu tempo e dinheiro com desenhistas e arte-finalistas. Lembre-se de Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”. Vá a algum encontro, veja algum que lhe agrade e copie. Tome o cuidado de mudar cores, mesclar desenhos. Para não ser interpelado por algum chato que se julgue no direito de requerer para si a propriedade de algo que você honestamente plagiou escreva no brasão: “desde 1985”, cria uma noção de precedência. Escreva também: “Belo Horizonte - Pindamonhangaba”. Caso o nosso inoportuno amigo continue a incomodar, o argumento da pré-existência no estado de São Paulo fechará a questão. Talvez ele inclusive se desculpe por haver inadvertidamente copiado sua logomarca, obviamente mais antiga. De mais a mais, quem seria tão desocupado a ponto de verificar se existe a tal facção de Pindamonhangaba?

Habitualmente novos motoclubes buscam grupos mais antigos com o fim de se tornarem “afilhados” destas agremiações tradicionais. Toma tempo, exige postura dos candidatos e por vezes algum reconhecimento dentro do meio. Não gaste energia com isso, encontre outros clubes tão desconhecidos quanto o seu e um apadrinha o outro.

Uma forma rápida de tornar sua trupe conhecida é participar de murais da internet. O caminho é simples, comece a freqüentar um mural, descubra as figurinhas repetidas. Poste mensagens dizendo que vai ao evento “tal” e lembre-se de elogiá-lo nos dias seguintes, ainda que tenha sido uma droga. Fale da boa organização, da recepção calorosa, das bandas de rock, da cerveja gelada a preços módicos. Não se esqueça de dizer que o fulano que dirigiu cinco ou seis palavras a você é um “motociclista de verdade”. Nunca falha.

No boxe norte americano não existe um campeão mundial, mas vários. Há conselhos, federações e associações de boxe, cada qual com seu respectivo título. No motociclismo não é diferente, temos associações e federações de motociclistas e motoclubes. Todas com presidentes, mensalidades e brasões. Ignore-as solenemente, advogue a favor de seu clube a liberdade e o anarquismo, soa politicamente correto, evita reuniões chatas e ainda poupa uns trocados.

Um dos requisitos para ser reconhecido é ser visto. Algum integrante de seu clube deve ter ou portar detalhes de aparência que sejam facilmente lembrados. Barbas de Papai Noel, calças alaranjadas, tatuagens extravagantes, qualquer coisa conta. É necessário também um completo desocupado, que possa ir a todos os eventos e reuniões. Um aposentado animado ou um milionário entediado que se disponha a carregar bandeira, trazer troféus e outras similaridades. Ao encontrar um desses não hesite, convide logo e ofereça algum cargo na diretoria.

Frases de efeito ou lemas são coisas a ser tratadas com carinho. Não precisam dizer nada, mas devem remeter ao motoclube. Outro exemplo caseiro: “Só os loucos sobrevivem”. A Organização Mundial de Saúde diz que as pessoas saudáveis têm uma expectativa de vida superior à dos alienados. A frase do ponto de vista estatístico é uma completa besteira. Por outro lado, os Loucos das Gerais indicaram este colunista como seu vice-presidente, publicaram este texto em seu site e não acabaram, pelo menos por enquanto. De fato, só os loucos sobrevivem...

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br