Coluna do Alexandre
Nº 4 - Outubro/2010

Como se (des)comportar em eventos motociclísticos

Um manual para a danação eterna - Parte II

Mais importante que pertencer a um motoclube, qualquer neófito deve aprender a se portar em eventos. É pelo seu comportamento que o motociclista será julgado por seus pares, aceito como igual ou discriminado como um cão sarnento. Uma vez que muitos motociclistas ano a ano se esquecem da civilidade e de nossas mais profundas tradições resolvemos colocar aqui um apanhado de normas e condutas a servir de norte aos recém chegados.

Comece aprendendo como se portar na estrada, preliminar de todo evento. Membros de motoclubes costumam viajar em conjunto, à frente o “capitão”, liderando o grupo e determinando o ritmo da viagem. A seguir o pelotão e por último um motociclista experiente, capaz de ultrapassar toda a trupe e solicitar ao líder que pare o comboio em caso de problemas. Bonito não é?! Ao ver um grupo desses na estrada simplesmente ultrapasse, afinal, quem agüenta viajar a 75 km/ hora? Não se acanhe em passar por entre as motos, você chegará mais rápido e ainda dará certa emoção à sonolenta caravana.

Chegando ao evento, procure a banca de inscrições do motoclube anfitrião. Reclame da má sinalização até o local da festa e pergunte o motivo do local estar tão vazio. Solicite um troféu, caso não exista, reclame que os eventos já não são mais os mesmos. Se o receber elogie e diga que no evento de Paulínia fizeram um troféu igual.

Em todo evento alguém, em determinado momento, faz uma churrascada gratuita, observe quem chefia a boca livre e se aproxime de algum integrante do clube patrocinador dos acepipes. Coma a vontade e não se faça de rogado. De tempo em tempo alguém passará recolhendo uns trocados para comprar mais carne. Dê três ou quatro pratas da primeira vez, faça algum alarde e pronto. Não dê mais. Se for necessário pagar, melhor procurar uma churrascaria. É necessário treino para se descobrir o timming perfeito entre comer muito e não pagar nada. Lamentavelmente a técnica para obter bebida gratuita exige mais treino e não cabe neste texto.

Existem opções para todos os bolsos e gostos em termos de hospedagem na maioria das cidades. Obviamente a pior opção é sempre o camping. Muita gente faz poesia sobre acampar, mas o fato é que dormir em barraca, tomar banho em banheiro coletivo e sentar em uma privada usada por trezentos leitões antes de você não tem nada de bonito, bom ou poético. A gente faz quando a grana acaba. Caso o momento seja difícil e você tenha de embarcar nessa, algumas dicas: Chegue com a moto ligada, não se acanhe em acelerar. Além de dormir mal ainda vai empurrar uma moto de 250 kg para lá e para cá? Caso tenha conseguido rapinar alguma menina de má índole na praça, não se acanhe. Deixe a moça gritar durante o ato. Torne a noite mais cultural, relembre Nelson Rodrigues e peça a ela que o chame de cadelão enquanto dão progresso à conjunção carnal. O camping continuará ruim, mas ao menos será divertido. Os hotéis são casos à parte em algumas cidades. Pegue o melhor que puder, muito provavelmente ainda será ruim. Alguns se assemelham a campings com barracas em alvenaria. Nesses o comportamento será semelhante ao do acampamento. Já outras cidades são tão ordinárias que só oferecem hospedagem do tipo “péssimo” ou ”pior”. Fuja dessas localidades.

Boa parte dos motoclubes patrocina campanhas do tipo “zoeira to fora”, “não ao zerinho” e similaridades. Esses motes devem ser respeitados, não pelo ideal da coisa, mas por razões de ordem prática. Um pneu de esportiva custa algo em torno de R$ 1000,00. Os motivos para não se fazer zerinhos ou acelerar a moto até cortar o combustível são respectivamente o preço do pneu e o custo de uma retífica. Isso se você possuir uma moto de grande cilindrada, com ronco compatível. Se for um feliz proprietário de uma 125, não deve fazer nenhuma das duas coisas pela absoluta anemia do som do motor e pela pouca fumaça do pneu.

Por último o café da manhã domingo cedo. É uma boa chance de bater papo, ver quem dormiu com quem, ouvir que o fulano deu em cima da mulher do cicrano, escutar quem teve a boca devidamente lambida pelos cães locais. Enfim, fofocar. Em termos de comida o da padaria é sempre melhor. Ouça tudo e ao retornar poste nos murais internet afora, obviamente dando nome aos bois.

Após um divertido e enriquecedor final de semana retorne para sua casa, almoce com a família, coma como um porco e durma no sofá. Acorde e ligue a televisão no jogo das 16 horas. Sua mulher irá adorar...

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br