Coluna do Alexandre
Nº 7 - Janeiro/2011

Como escolher uma motocicleta

Um manual para a danação eterna – parte 0

Freud ao longo de sua obra ensina que o homem busca, em sua passagem pelo mundo, essencialmente o sexo. Desde a mais tenra idade somos movidos pela luxúria e perversão, o desejo de comer a própria mãe irá nos perseguir vida afora, desejo esse colocado dentro dos limites da civilidade na fase da castração, quando nossos pais cortam nosso barato.

Torna-se então fácil esquadrinhar o que se passa nos meandros da mente de um motociclista ao escolher sua motocicleta. Pegar mulher! Não criemos ilusões ou falsos motivos como liberdade, vento no rosto ou outras fanfarronices. Queremos moto pra pegar mulher e pronto. As namoradas, esposas e similares que nos desculpem, falem mal, praguejem, nos entreguem aos cuidados do maligno, mas é isto mesmo.

Antes que os rolos de macarrão comecem a cantar em nossos miolos vamos esclarecer melhor o que se passa. Toda a questão até aqui exposta obviamente se passa no plano inconsciente. Sendo assim, não podemos ser punidos por algo que sequer temos idéia de que fazemos. Ao que me consta, motociclistas não passam dez anos deitados num divã, logo, inconsciente para nós é somente alguém que caiu da moto e entrou em coma.

Ocorre que homens pensam como homens e mulheres como mulheres, obviedade ululante. Contudo, isto será decisivo para o insucesso de nossos planos de beliscar a mulherada.

Existem alguns tipos básicos de motocicletas. As mais comuns em encontros de motociclistas são as Custom. Os homens as compram, magnetizados pelos cromados, pelo ronco do motor. Não se iludam, mulher não se liga nisso. Para elas isso é moto de velho metaleiro. Barbudo, sujo e cheio de tatuagem. Se o marido de uma das senhoras possui uma dessas durma tranqüila. Ele não pega ninguém em cima daquilo.

Outro tipo muito comum nos eventos são as motos chamadas Big Trails. São altas, imponentes, uma mistura de moto de trilha com esportiva. Esqueçam, mulher nem vê isso passando. São motos de ermitões, que viajam por semanas, sozinhos, pelos desertos e glaciares sul-americanos ou de sujeitos que só viajam levando a patroa a tiracolo. As trails e minitrails são versões mais simples e mais baratas desse estilo. Você conhece mulher que goste do mais simples e do mais barato? Nem eu.

As tourings são motos confortáveis, imensas, o dodge dart com duas rodas. Dificilmente você verá um sujeito com menos de 55 anos em cima de uma dessas. Uma verdadeira queimação de filme para o mulherio, a mesma coisa que participar de um desfile de carnaval montado num elefante.

Nakeds são motos esportivas sem carenagens, traduzindo: versões vitaminadas da CG 125. Um lutador de boxe peso pena é tão lutador quanto um peso pesado, o que muda é o tamanho e a força, assim, uma neked é uma CG grande e mulher não quer saber de CG, nem grande, nem pequena.

Motos de trilha só interessam às fêmeas naquele curto período entre a visão da moto em cima da carretinha e o primeiro pensamento acerca da condição higiênica do cidadão ao retornar. A partir desse ponto a indiferença é completa, ela olhará para você como quem mira um javali.

Por último as esportivas. Bem, essas interessam às mulheres, são motos que invocam força, velocidade, destemor. Qualidades procuradas por elas ao escolherem um parceiro. E ainda custam os olhos da cara! Aquele banquinho de garupa, projetado pelo Marquês de Sade, realça suas qualidades de fêmea, bumbum empinado, emanam fertilidade, moto pra loira rabuda desfilar. A moto é essa, a mulherada faz fila. O diabo é o macacão! Todos os usuários dessas motos usam um macacão de couro que, tenho quase certeza, fora usado anos antes por Freddie Mercury ou David Bowie, não sei bem qual dos dois. Desaconselhável, muito. É o uniforme do metrossexual do século XXI. Só pense nas esportivas se não levar junto o macacão.

Portanto caras leitoras acalmem seus corações. Nossas mais pútridas intenções foram arruinadas por nossa própria incapacidade em compreender a alma feminina. Os motociclistas que tratem de ingressar em algum curso de gastronomia ou jardinagem se quiserem rapinar alguém. Usem a moto apenas para ir aos encontros beber cachaça e ver show de rock. Antes que a situação piore ainda mais para o meu lado é premente ressaltar que este colunista foi proprietário de duas customs. Hoje possui uma big trail e uma street pequena. Um tremendo pega nada.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br