Coluna do Alexandre
Nº 8 - Fevereiro/2011

Acabado

Estou acabado como colunista, acabou-se a verve, as idéias secaram. Minha coluna encontra-se atrasada uma semana, os poucos leitores devem estar se perguntando se fugi de algum malfeito rumo a algum país distante ou se passei desta para o outro lado. Tentei escrever sobre política, viagens de moto, até sobre as piriguetes do Big Brother e a degeneração dos costumes. Nada, não conseguia ir além do primeiro parágrafo e ao reler só via um velho rabugento a reclamar. Tornei-me o Walter Matthau do colunismo motociclístico.

Para todas as agruras da vida existem culpados, normalmente os outros. A culpa pelo declínio do idioma pátrio pertence à Dilma e ao Tiririca. O calvário do Atlético é responsabilidade de quem pintou o manto da santa de preto e do Renan Oliveira. Minha falta de inspiração é culpa de numa monumental reforma imobiliária. Pedreiro, marceneiro, serralheiro, marmoreiro e todos os outros “eiros” disponíveis passaram a habitar meu dia a dia. Tais quais Guido Mantega, cada vez que abrem a boca fico mil reais mais pobre.

É impressionante o que se descobre durante uma reforma. Nada é vendido inteiro, compra-se a torneira e o registro, um não funciona sem o outro, mas são vendidos separados, dois preços, duas despesas. Trocar um azulejo é quase uma odisséia, quebra-se o velho, reboca-se a parede, passa-se argamassa por sobre o reboco, um pouco mais às costas da cerâmica e ainda se mete entre uma lajota e outra umas cruzetas de plástico que ninguém depois sabe onde vão parar. E nem chegamos ao rejuntamento. Não há saída para a atual concretude de pensamentos, para a aridez cerebral. Minha mente foi calcinada pela equipe da construção.

Deu na televisão que faltam setenta mil engenheiros no Brasil, passo a temer o futuro. Os que estão aí já levaram este pobre colunista à beira da demência. Hoje qualquer armador ou pedreiro me provoca convulsões e crises de pânico. Essa quantidade de gente com suas pranchetas e calculadoras HP comandando uma trupe de operários é um passaporte para a alienação, um convite ao eletrochoque.

Restou a moto. Uma viagem é sempre ótima oportunidade para encontrar alguma idéia, regar a cabeça de inspiração e gasolina. Sozinho, sem compromisso de paradas ou limite de velocidade. Trezentos e sessenta quilômetros dentro do capacete, sem sacos de cimento, porcelanato ou Vanderlei Luxemburgo. Sentir o vento, contornar curvas, acelerar. A mente relaxando, a tranqüilidade retornando em meio a ultrapassagens e adrenalina. Como uma viagem faz bem a um motociclista. Ao fim do dia o retorno, calmo, relaxado. Sentei-me ao computador à caça de um mote para o texto do mês. Buscando inspiração descobri a melhor cor para a parede da sala e o modelo da janela do quarto principal. Telefonei ao psiquiatra, pedi uma consulta e duas receitas de Haldol. Ainda sem idéias para a coluna...

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br