Coluna do Alexandre
Nº 9 - Março/2011

Assombração

Todo mundo tem seus fantasmas, seus medos, suas assombrações. Este colunista não é diferente. Também possuo uma entidade perseguidora, que graças à modernidade atual anda à minha espreita motorizada em um Fiorino branco.

O espírito obsessor apareceu pela primeira vez numa viagem de moto que fizemos eu, Gabriel e Charles ao Rio Grande do Sul. De início julgávamos ser apenas coincidência que três ou quatro Fiorinos brancos nos fechassem, espremessem em curvas ou tentassem nos jogar para fora da rodovia, mas uma vez que o problema se estendeu pelos dias e estados seguintes começamos a temer alguma artimanha do maligno.

Tratava-se de um ectoplasma interestadual, iniciara sua jornada em Minas Gerais, atravessara São Paulo e Paraná e ainda nos colocava em apuros de quando em vez. Ao entrar em Santa Catarina o desespero começou a se instalar em nossos supersticiosos corações. Os detalhes na caminhoneta mudavam, mas todas tinham em comum o fato de não possibilitar a visão do motorista, não permitir que divisássemos a placa e a ausência de qualquer logotipo que associasse o utilitário a alguma empresa ou instituição. Um carro sem condutor ou identificação a nos perseguir por quatro estados e às portas do quinto.

No pernoite em Florianópolis começamos a arquitetar um modo de nos livrarmos da alma penada. Em meio a boas doses de álcool pensamos em montar algum tipo de armadilha ou contratar um Pai de Santo, já acostumado a espantar deslocados de outro mundo. Uma vez que as idéias não floresciam nos contentamos em encher a cara e observar o movimento. No dia seguinte partimos em direção a Gramado, destino final da viagem. Lá estava o Fiorino novamente, a nos espremer contra uma carreta mais lenta que ia à frente. Tomados pelo desespero demos passagem e logo em seguida alcançamos um trecho de longa pista dupla, que nos possibilitou acelerar a moto e ultrapassar de forma humilhante a assombração, que desapareceu.

Penso ter ferido o orgulho da alma penada pois não a vimos no retorno a Belo Horizonte. Mas como fantasmas possuem o mau hábito de retornar, de tempos em tempos me deparo com algum Fiorino Branco em meu encalço. Pensei em vender a moto, me congregar a alguma igreja com experiência em espaventar almas de outro mundo ou me mudar para algum país onde não se fabricassem peruas deste modelo.

Tenho por princípio evitar países piores que o meu, com isso restam poucos lugares em que valha a pena habitar. Sendo a Europa o berço deste modelo, certamente acabarei perseguido por alguma versão italiana da perua. Na América do Norte utilitários costumam ser maiores e seus ocupantes, vivos ou não, tem a mania de puxar para dentro da van seus perseguidos, como vemos freqüentemente em filmes policiais e de terror. Ser perseguido por um carro já é desagradável, ser abduzido por um deles é o fim da picada. Penso ser melhor ficar por aqui mesmo e me acostumar com meu fantasma tupiniquim.

De mais a mais, os Fiorinos devem sair de linha em breve, confinando minha assombração a algum ferro-velho, onde amolará o proprietário. Pelo sim ou pelo não marquei um horário no terreiro do bairro. De duas uma, ou o Pai de Santo me livra do Fiorino ou arruma um fantasma melhor motorizado, incorporado em alguma BMW ou Mercedes, que me aterrorizará com mais estilo, de pobre basto eu.

Alexandre Dias Pinto Coelho
alexandredpcoelho@yahoo.com.br