Coluna do Ozéias
Nº 1 - Agosto/2014

FILOSOFIAS FILOSÓFICAS A DESPEITO DE GAIVOTAS VOADORAS – A SOBERBA E O EQUÍVOCO PARTE II

Já se vão vários anos que deixei de lado um grande prazer pessoal.
Escrever é algo paradoxal. Ao tempo que propicia um misto de realização e devaneio, traz também a dor suplicante e torturante do passo inicial.

É como começar a correr. Vencer os primeiros metros é algo hercúleo, mas depois que as drogas produzidas por nós mesmos começam a irrigar o cérebro, o sofrimento cede lugar ao prazer.

Minha letargia desses vários anos é fruto de algumas situações, a começar pela preguiça, essa nobre prática que acaba por nos lançar aos braços de um senhor ainda mais poderoso, o gosto pelo ócio. Ainda que um sujeito que trabalha mais de 10 horas por dia não possa ser considerado um escravo do ócio, mas me refiro apenas ao velho hábito da escrita e leitura, relegado por mim ao opróbio.

Todavia, fazendo um breve exercício de memória, deixei de escrever regularmente (até cheguei a ter um blog em conjunto com alguns amigos a muitos anos atrás) devido ao puro desinteresse pelos assuntos mundanos dos últimos tempos.
A recorrência dos temas da atualidade, aliada à futilidade dos baluartes sociais me converteram a temas que também me interessam, mas que até então nunca havia me debruçado.

Dessa forma, minha modesta biblioteca ganhou novos temas e comecei achar mais interesse conhecer um pouco sobre cosmologia do que acompanhar denúncias de corrupção no Brasil. Física para leigos passou a preencher mais meu imaginário, em detrimento das teorias sociais.

Os mais radicais poderão até me taxar de “alienado”, ou qualquer um desses termos batidos das velhas ciências sociais, mas o fato é que cansei de debates de butecos, onde a tônica sobre a política nacional sempre tem pauta garantida nos exaltados discursos dos bêbados.

O tempo é célere e inexorável e percebi que, em se tratando de Brasil, onde parecemos andar em labirintos montados pelos poderosos que não tem interesse na mudança, não adianta nos iludirmos com vãs esperanças no “país do amanhã”.

Já ouço isso a muito tempo e meus antepassados também ouviam, por isso passei a acreditar que algo mais sábio é aproveitar a vida junto às pessoas que amamos, com os bons amigos e de preferência amparados por bons hábitos, como um belo churrasco, por exemplo.

Mas o que tudo isso tem a ver com as linhas iniciais desse texto? Não estava falando do hiato em escrever que me tomou por tanto tempo? Sim. A algumas semanas atrás compareci a uma reunião de meu Motoclube, o Loucos das Gerais, na casa de nosso grão-mestre-presidente, Emanuel Vilela.

Confesso que fiquei puto por ter que frear a cerveja no sábado à noite, pois a reunião seria no domingo pela manhã, mas tudo em prol do motociclismo.

Reunião de motociclistas é desculpa para rever os amigos, falar de motos, praguejar sobre a política nacional (olha a danada aí de novo) e abraçar os companheiros de estrada para matar a saudade (claro que jamais iremos admitir isso, afinal somos machões que usam trajes de couro adornados com símbolos de destruição e ódio – caveiras, cruzes, metais etc).

A pauta da reunião e seus desdobramentos é tema que merece outra crônica, não cabendo ser citada aqui.

O fato é que nessa reunião, que conseguiu inclusive tirar nosso vice-presidente Alexandre de seus ininterruptos plantões médicos, Emanuel me fez o convite de escrever algo para postar no site do motoclube.

Coincidentemente, estava vários anos (sem exagero), pensando em escrever algo, mas tal qual Dorival Caymmi, estava apenas “cogitando” e assistindo o tempo passar.

Como já disse, o desinteresse pelos rumos atuais dos temas sempre me faziam achar coisa mais interessante a fazer, coçar meu cachorro é uma delas.
Mas o convite do Emanuel realmente me alertou. Vivemos a era do efêmero. A mudança se dá na velocidade crescente das inovações tecnológicas, cada dia nos tornando mais ávidos por novidades, mais monossilábicos em nossas expressões (quem ainda envia e-mail’s com bons textos? Ninguém vai ler mesmo), menos tolerantes e mais ásperos.

A resultante de tudo isso é que estamos nos tornando autômatos a cada momento, perdendo que estamos a nossa capacidade de rememorar fatos e tirar lições dos mesmos.

Para quem acredita que estou sendo cataclísmico, pergunto: quem se lembra da Rosimeire Noronha? E do Carlinhos Cachoeira?
Nem foi preciso ir muito longe. Essas duas figuras estiveram a pouquíssimo tempo estampadas nas manchetes da polít..., digo balbúrdia nacional e já soam como nomes distantes, de um passado que nem fazemos questão de lembrar.

Percebo agora que esse texto trata de retorno, de resgate.

Retorno aos Loucos das Gerais, capítulo importante em minha vida, que não posso prescindir.

Resgate de bons amigos, de bons hábitos e prazeres saudáveis: bate-papo com pessoas interessantes, passeios de motocicleta.

Retorno e resgate do prazer de escrever, pois não faltam assuntos e sempre haverá um tema mais interessante do que a política nacional e a Rosimeire Noronha.

Saravá.

Ozéias Rocha
ozeiasrocha@gmail.com