Coluna do Ozéias
Nº 2 - Novembro/2014

A ERA DA HIPROCRISIA

Outro dia fui laureado com um presente simbólico para quem viveu os alegres anos 1980: um conjunto de 3 DVD’s com registro dos melhores momentos dos Trapalhões.

Obviamente o saudosismo e a emoção de rever os “épicos” do quarteto que fez a alegria da família brasileira durante tanto tempo foram as primeiras reações a me tomar, juntamente com o turbilhão de lembranças imediatamente descarregadas no cérebro.

Foram momentos mágicos, com deleite nos elementos presentes na química bem-sucedida do quarteto. O cearense esperto, o mineirinho inocente, o carioca malandro e o galã da periferia.

Efêmeros momentos, que, superados, me trouxeram alguns devaneios (como é chato envelhecer!!!).

Sem a inocência da década colorida e da infância bem-vivida, sobram as comparações com os dias de hoje.

Difícil imaginar, com base no que presenciamos hoje, como era possível existir um programa televisivo campeão de audiência, em que a tônica humorística era, em sua maioria, centrada no escárnio de temas proibitivos para a nossa sociedade atual: racismo, homofobia, bullying, dentre outros.

Como não me tornei nenhum partidário das “apologias” contidas no conteúdo oitentista, muito menos me converti ao Estado Islâmico, fato também não ocorrido com meu círculo de contemporâneos, penso que não havia nada de errado com o que absorvemos naquela época.

Por outro lado, é difícil prevalecer o mesmo julgamento com os dias atuais.

As boas paródias musicais dos Trapalhões em nada denegriam os princípios da unidade familiar brasileira, ao passo que o funk dos dias atuais promove o que há de mais impactante na degradação humana, com suas referências às drogas, criminalidade, ostentação sem conquistas justas, violência e outras mazelas mais.

Sem delongas, o que presenciamos hoje é uma inversão de valores, disseminada pela grande mídia manipuladora e calcada na opinião pessoal de uma “minoria” (aliás esse termo está bastante em voga) que busca firmar suas preferências pessoais, não se importando que a maioria prefere ver os mamilos da Brooke Shields em “A Lagoa Azul” (censurado milhões de vezes na sessão da tarde) a contemplar duas bichas (vixe, acabei usando termo oitentista proibido há tempos) se beijando em canal aberto e horário nobre, com crianças na sala.

Antes que ganhe um processo, por atingir as “minorias”, finalizo o texto me lembrando que Eric Hobsbawn teria um motivo a mais para prosseguir com sua tríade das “eras”. O autor de “A Era da Incerteza” teria bastante material para compor um excelente “A Era da Hipocrisia”.

Saravá.

P.S.: iria escrever sobre economia, assunto que me persegue no gosto e no ganha-pão, mas o Alexandre conseguiu dizer tudo, e algo mais, que eu iria dizer, em sua excelente edição nº 18, “Sobre Homens e Ratos”. Além de cortar/costurar pessoas e salvar vidas, o cara ainda entende da ciência de Adam Smith.
Alexandre, vá se danar!!!

Ozéias Rocha
ozeiasrocha@gmail.com